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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Before they were belly dancers


      In 1896, my paternal great-grandmother and her only child, my grandmother, set out from Peoria, Illinois, on their Grand Tour of Europe, an extended vacation that eventually included a Cook's Cruise of Egypt's Nile. At the dock at Asyût, under a bright February sun, my great-grandmother wrote on her diary:
     Boats were drawn up along the shore; camels with huge loads went by and altogether it was a strangeand lively scene. Today just before the steamer started it was still more so. Many freight dahabehs [boats] were unloaded onto the camels and men with pig- and goat-skin water bagswere filling them from the river. A great gaunt, pink-legged ostrich strode by. A dancing girl with her face tattoed danced on the sand to the music of a coconut fiddle.

SPOILER FREE

Esse é um livro que fiquei muito feliz quando descobri que existia, dada a escassez de material acadêmico sobre a história da dança do ventre produzido por amantes da dança. Em consequência, fiquei meses namorando ele antes de comprar, até que não resisti. Acho inclusive que não o comprei em promoção, o que é algo muito raro.

E não me arrependi, pois o trabalho da Kathllen é excelente. Através de uma extensa pesquisa em textos de viajantes que visitaram o Egito entre 1770 e 1870, se não me engano, ela faz um levantamento bastante completo do que foi escrito sobre o mundo da dança no país, organizando a informação em diversos temas, de forma a melhor organizar os dados disponíveis.

Como boa pesquisadora, a autora ainda leva em consideração a questão do preconceito dos viajantes, em sua maioria ingleses e franceses, em seus relatos para tentar extrair o máximo de dados não corrompidos por uma visão eurocêntrica ou desmerecedora da cultura egípcia, especialmente no quesito de perceber a dança como excessivamente sexualizada ou animalesca.

Dessa forma, ela consegue apontar diversos fatos interessantes nos escritos de viagens, tais como a história das roupas utilizadas pelas bailarinas, a questão dos tipos de bailarinas que existiam na época, inclusive bailarinos homens que se apresentavam em tudo quanto é tipo de espaço. Ela consegue apontar alguns estilos de dança que já não existem mais, alguns acessórios que eram comuns, e até um pouco da biografia de algumas bailarinas e um bailarino da época.

De quebra ela ainda trata de alguns mitos comuns na comunidade da dança do ventre, apontando o que deles pode ser considerado apenas rumor e o que é de fato invenção. Levando em consideração a fonte de pesquisa, ela toma bastante cuidado ao não afirmar como verdade absoluta o que é contado pelos viajantes, o que é um ponto positivo. A única questão que eu acho que ela não trata muito bem é a questão dos europeus entenderem os bailarinos homens como travestis, pois pessoalmente eu tenho minhas dúvidas do quanto dessas afirmações são válidas e o quanto é julgamento europeu em cima de homens que dançavam "de saia ou vestido", usando maquiagem e mexendo o quadril.

A excelente qualidade do trabalho a parte, é preciso dizer que o livro é extremamente acadêmico, o que torna a leitura um tanto pesada e maçante em alguns pontos. Não que todos os textos acadêmicos sejam assim, mas não é o foco da autora fazer um texto leve ou agradável.

Fiquei tão feliz com essa leitura que já comprei mais um livro desse tipo, dessa vez do Anthony Shay (que eu já e gosto do trabalho) para ler no próximo ano.

Nota 9,5.

Retrospectiva 2017

Estamos no apagar das luzes do ano, então estou tentando fechar um post de retrospectiva do ano a tempo, levando em consideração que tem livros terminando ainda esse ano no momento que estou escrevendo, o objetivo ainda não está cumprido! Mas os deuses da literatura são poderosos e hão de me ajudar!

Vamos a algumas estatísticas interessantes:

Total de Livros Lidos: 78
Total de páginas lidas: 20.675
Livro mais curto: Invasão: um conto urbano - 5 páginas
Livro mais longo: The Prize - 929 páginas
Média de página por livro: 265 páginas
Total de livros de poesia: 22
Livros brasileiros: 3
Livros de não-ficção: 20
Livros de contos: 4
Livros de vencedores do Nobel: 6
Livros escritos por mulheres: 45

Retrospectiva:

O ano de 2017 começou extremamente auspicioso, primeiro comecei o ano meio doente (o que não é auspicioso, mas releva), então eu precisava de livros que me fizessem me sentir bem, logo, abri o ano só com gente boa: William Blake - The Marriage of Heaven and Hell, Valter Hugo Mãe - Homens imprudentemente poéticos e Ondjaki - E se amanhã o medo. Apostei em alguns nomes desconhecidos para mim, como Randa Ghazi - Sonhando a palestina, que me emocionou muitíssimo e Muriel Barbery - A elegância do ouriço, que já entrou na minha wish-list para eu ler outras obras da autora francesa. Ainda em janeiro, li a fabulosa Amélie Nothomb - Le sabotage amoureaux, Ismail Kadaré - Uma questão de Loucura e Nikki Giovanni - Bicycles. E consegui finalizar alguns livros iniciados no final de 2016, como Um amor feliz - Wislawa Szymborska, Cem Poemas - Kabir e Poemas - Adonis, sendo que esse último eu comecei a ler quase na virada para 2017.

Janeiro foi um mês extremamente produtivo, com todo o tempo que passei em casa de licença médica e de férias. E eu digo isso porque ainda terminei nesse mês mais livros bacanas: Weird Things Customers Say in Bookshops (volumes 1 e 2) - Jen Campbell e Fountain and Tomb - Naguib Mahfouz.

Difícil de manter a qualidade depois de tantos livros, então primeiro dei uns azares, com Natural Year - Jane Alexander, que deixou um tanto a desejar, Ariel - Sylvia Plath, que detestei, e os medianos Dreamcartcher - Stephen King e Batman: O cavaleiro das trevas - Frank Miller. Entremeado a eles, para manter a força, consegui coisas boas como: Poemas - Wislawa Szymborska (virei fã de carteirinha, quero ler pra sempre), The Ilustrious Jade Egg - Saida Desilets (muito informativo, me animou a ler outro livro da autora, que espero continuar a ler no ano que vem), Há Prendisajens com o Xão - Ondjaki e A viagem iniciática - Christian Jacq.

A partir desse ponto a coisa virou meio montanha russa, primeiro com o péssimo O diabo veste Prada - Lauren Weisberg, o que me surpreendeu, pois gosto muito do filme, seguido do fofíssimo Howl's Moving Castle - Diana Wynne Jones, que eu curti tanto que ainda li esse ano suas duas continuações (vamos chegar lá), do muito bacana e leve Show your work! - Austin Kleon, e novamente outro ruinzinho, Petrobras: uma história de orgulho e vergonha - Roberta Paduan.

Esse momento montanha russa atingiu até as leituras de poesia, pois consegui ler Neruda - Teus pés toco na sombra e outros poemas inéditos e Jacques Prévert - Paroles, dois gigantes da poesia, junto com 2 livros meio méh, o Poemas da Antologia Palatina - José Paulo Paes, que não me animou, e o péssimo-nunca-mais-leio-nada-da-autora A teus pés - Cristina Cesar.

Aí entrei numa fase de literatura italiana, pois uma amiga emprestou o seu kindle para eu ler os livros da Elena Ferrante. O que me deixou meio abismada, primeiro porque me emprestaram um kindle, o que achei sensacional, eu não tenho maturidade pra isso, segundo porque Elena Ferrante é maravilhosa e amei tudo: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e, por fim, The Story of the Lost Child. Sim, o último livro eu li em inglês, minha amiga justificou o caso com "em inglês lançou primeiro", e eu não ia reclamar.

Claro que simultaneamente eu li outras coisas que foram bem interessantes, como: The tiny book of tiny stories 2 - Joseph Gordon-Levitt (só a organização!), Hemingway didn't say that - Garson O'Toole, que fez um estudo muito interessante sobre citações de internet, Fortunately the milk - Neil Gaiman (não tem como errar, tudo dele é interessante de ler), A maze me: poems for girls - Naomi Shihab Nye, que não foi lá essas coisas mas deu para aproveitar, Feminist Fight Club - Jessica Bennett, título bem autoexplicativo e leitura sensacional.

Confesso que foi uma fase um tanto de livros visuais, depois do primeiro volume de Tiny Stories e do livro do Neil Gaiman ainda li outros, como Lost in translation - Ella Frances Sanders, Adulthood is a myth - Sarah Andersen, o terceiro volume de The tiny book of tiny stories e Milk and honey - Rupi Kaur.

E dessa forma fui me preparando para o meu primeiro grande desafio do ano, lendo mais um livro do Neil Gaiman - Trigger Warning, dessa vez de contos, a ficção científica sensacional Sleeping giants - Sylvain Neuvel (que foi objeto de uma confusão de gênero da minha parte) e o livro fast-food-que-faz-mal-pra-saúde Beautiful Mistake - Vi Keeland. Então consegui estar pronta para encarar as quase mil páginas de The Prize - Daniel Yergin, ganhador do Pulitzer e quase bíblia de quem estuda história e geopolítica do petróleo.

Depois disso, fiquei um tempo desintoxicando, então li um monte de coisas leves, como A hidden witch - Debora Geary (rainha dos livros onde tudo é cor de rosa e céu de brigadeiro), os dois últimos volumes da série Trono de Vidro, Empire of Storms e Tower of Dawn, o leve 13 dates - Matt Dunn, e pra dizer que nem tudo foi suave, li a autobiografia maravilhosa do bailarino Kenny Pearl, The Dance Gods, e da americana de origem chinesa Amy Chua, Battle Hymn of the Tiger Mother, terminei os livros de poesia do Rûmi, Poemas de Rûmi, T.S.Eliot, Collected Poems 1909-1962, e Mia Couto, Poemas Escolhidos.

Paralelamente a isso, li o monstro Tails of Wonder and Imagination, um livro de contos que tem a proeza de ter 500 páginas. Mas gatos. Não tem como reclamar de gatos.


Então me senti bem o suficiente para o segundo desafio do ano: Orientalismo de Edward Said. Que, obviamente, foi seguido de uma segunda desintoxicação, com os surpreendentes Witches of New York - Ami McKay e The ghostwriter - Alessandra Torre. Como eu estava no ritmo dos contos ainda li o Once upon a curse, que não chegou aos pés dos gatos, claro.

Daí investi em algumas leituras garantidas, como a continuação de Castelo Animado, Castle in the air - Diana Wynne Jones e Spark Joy - Marie Kondo. Então tomei coragem e arrisquei com Invasão: um conto urbano, de um amigo meu, The Simple Sabbat - M. Flora Peterson, que não me deixou tão satisfeita e a surpresa A house in Fez - Suzanna Clarke, que me surpreendeu por não ser da Suzana Clarke e mesmo assim ser bom. Sim, isso mesmo, só leia com atenção.

Daí o ano já foi acabando e eu corri para terminar mais alguns livros de poesia, Poemas do Brasil - Elizabeth Bishop, O gueto/O eco da minha mãe - Tamara Kamenszain, Instante - Wislawa Szymborska (meu terceiro livro dela desse ano, puro amor) e Um útero é do tamanho de um punho. Consegui terminar antes do que eu esperava o livro quase sobre estatística Everybody lies - Seth Stephens-Davidowitz e por isso consegui ainda encaixar nos últimos dias do ano House of many ways - Diana Wynne Jones, o último da série do Castelo Animado, uma Agatha Christie - The murder at the vicarage, o interessante Dusk or Dark or Dawn or Day - Seanan McGuire, mais uma autobiografia, dessa vez da princesa Leia, The Princess Diarist - Carrie Fisher, o cheio de raiva Superman is an arab - Joumanna Haddad e, por fim, o super acadêmico Before they were belly dancers - Kathleen W. Fraser.

No mais, esse ano eu segui meio mais ou menos o Desafio Literário Corujesco, pois consegui fazer todos os temas do ano, porém, não consegui fazer nos meses previstos, o que não me deixa tão triste porque não li menos livros por causa disso.

Agora, a pedidos de amigos, os melhores do ano! Não vai ter top 5 ou listinha, não consigo, tem muito livro bom pra isso, mas dá para fazer umas concessões!

Melhores autores de poesia do ano: Wislawa Szymborska, Ondjaki, William Blake, Kabir e Mia Couto
Melhor livro de contos do ano: empate entre Fountain and Tomb, Trigger Warning e Tails of wonder and imagination
Melhor autobiografia: The dance gods - Kenny Pearl
Melhor não ficção: Spark Joy - Marie Kondo e Before they were belly dancers - Kathleen W. Fraser
Melhor HQ: Adulthood is a myth
Melhores livros romance: toda a série Napolitana da Elena Ferrante, Homens imprudentemente poéticos do Valter Hugo Mãe, A elegância do ouriço da Muriel Barbery, a trilogia de Castelo Animado da Dianna Wynne Jones, Sleeping Giants do Sylvain Neuvel e Le Sabotage amoureaux da Amélie Nothomb, com menção honrosa para The Whitches of New York de Ami McKay e The Ghostwriter da Alessandra Torre.

Que 2018 seja ainda melhor!

Desafio Literário 2018

E já no finalzinho do ano, é preciso parar pra planejar, pelo menos um pouco, as leituras de 2018. Novamente pretendo seguir o Desafio Literário do blog Coruja em Teto de Zinco Quente, porque eu gosto dos temas que a Luciana escolhe, e é sempre bom tentar sair da zona de conforto e ler algo diferente.

Então vamos ao que interessa!

Janeiro - tema livre
Ainda bem, devo passar umas 3 semanas viajando e não tenho a menor perspectiva de ler muito, ou nada, nesse mês.

Fevereiro - Uma Aventura no Mar
Para fevereiro vale tanto ler um livro de não-ficção sobre o período das Grandes Navegações, talvez uma biografia de Colombo; como uma aventura clássica estilo Moby Dick. Os horrores lovecraftianos estão muito ligados aos abismos marinhos sobre os quais ainda pouco sabemos e é sempre possível retornar a Verne e seu capitão Nemo. O gênero é o que menos importa, desde que estejamos singrando pelos sete mares!

Menor ideia! Até tenho Moby Dick pra ler, mas não sei se vou encarar esse tijolo esse ano. Vou precisar pensar durante o Carnaval.

Março - Um Livro, uma Estação
Um livro com uma estação do ano no título e/ou no enredo.

O que mais tem é romance com alguma estação do ano no título. Farei uni-duni-tê.

Abril - Uma História Oriental
Fica a critério do leitor o que quer entender como oriente: uma localização geográfica, cultural ou econômica, fato é que devemos de vez em quando fugir ao eixo Europa-EUA de nossas leituras.

Literatura árabe!!! Oba! O que lerei primeiro? É provável que seja um Naguib Mahfouz... como amo esse autor!

Maio - Uma História sobre Livros
Tema bastante autoexplicativo. Quer coisa melhor que um livro que fale sobre livros?

A minha sorte nesse sentido é que andei comprando alguns livros sobre esse tema, porque eu também gosto dele. Ótima desculpa para furar fila.

Junho - Uma História de Família
Pode ser uma história que abarque gerações de uma mesma família ou um drama familiar mais conciso. Pode ser tipo aquela macarronada de domingo em que todo mundo se reúne e todo mundo se mete na vida de todo mundo ou aqueles enredos de pais e filhos que não conseguem conviver. O importante é ter família, em conflito ou em harmonia, cheia de segredos e esqueletos no armário ou que lava a roupa suja em público, o gosto é do leitor.

Menor ideia... tem tanta opção. Até livro de não-ficção pode se enquadrar nesse tema...

Julho - Uma História Pós-Apocalíptica
Um livro que tenha um cenário apocalíptico ou pós-apocalíptico, onde a sociedade como conhecemos tenha sido destruída. Podem ter explodido a terra ou tornado ela inabitável; pode ser que estejamos morando nos subterrâneos ou num trem a toda velocidade... mas o conflito e as mudanças causadas pelo ‘fim do mundo’ como o conhecemos têm de aparecer por aqui.

Houston, temos um problema. Eis uma temática que não é exatamente o meu forte. Vou precisar procurar bem nos meus livros pra ver se tem algum que se encaixa aqui. E eu já li Jogos Vorazes :-/

Agosto - Uma História em Tempos de Guerra
Uma história que aconteça no nosso mundo ou mesmo num lugar e época ficcionais: histórias que se passam em tempos de guerra são um bom exercício para entendermos empatia, coragem e desespero, para vermos o que há de melhor e pior no ser humano. São histórias necessárias, sem dúvida alguma.

Outro tema que não é o meu forte, mas acho que tenho mais livros nessa linha, nem que sejam sobre a Palestina. Tenho certeza de que contam.

Setembro - Uma História narrada em Primeira Pessoa
E é isso. :-) Precisa de mais?

Vixi... normalmente eu não sei se um livro é narrado assim antes de começar a ler. Vai precisar de uma pesquisa também. Ou então uma autobiografia!!!! Ainda tenho várias para ler.

Outubro - Uma História que te Provoque Risos

Também não precisa explicar muito, não é mesmo? A essa altura, já estamos chegando no fim do ano e um pouco de risada para ajudar com o estresse é simplesmente necessário.


São tantas opções... vou ler o que der vontade na época. Espero que até lá eu tenha conseguido um livro que estou namorando na Amazon *.*

Novembro - Uma história com Teoria da Conspiração
Histórias de organizações secretas que tramam e acobertam uma situação ou evento da humanidade. Adoro uma boa teoria da conspiração, não importa se ridícula ou completamente crível. A imaginação é o limite!

Hum... eu tenho alguns livros interessantes de não-ficção sobre isso... sobre a CIA o 11 de setembro... espero que contem!

Dezembro - tema livre!

Ainda bem, no final do ano o lance é ler o que dá.

Superman is an arab


     Once upon a time, there was a little girl who loved to read more than anything else in the whole world. She read everything seh could get her hands on: her father's newspapers, her mother's glossy magazines, and all the books that were stuffed in their house's big library. She even read the tiny information leaflets that come inside drug boxes, notifying users about dosage, administration and side effects. That's how she learnet, by age eight, that antacids and alcohol were not a good mix, and that 'Ranitidine may decrease the absorption of diazepam and reduce its plasma concentration': warnings which proved not to be useful later in her life.

SPOILER FREE

Joumana Haddad é uma autora libanesa conhecida no Brasil pelo livro "eu matei Sherazade". No Líbano ela é uma das vozes mais proeminentes do feminismo, e seu trabalho e seus textos são muito importantes para o movimento feminista no Oriente Médio.

Dito isso, é preciso dizer que Superman is an Arab não é um bom livro. Infelizmente ele sofre de um problema estrutural sério, que é o excesso de assuntos envolvidos em menos de 300 páginas. O segundo problema é mais complicado, que é a forma como os assuntos são abordados. A sensação que tive é que Joumana fez desse livro uma oportunidade de gritar aos quatro ventos toda a sua raiva e frustração. O que é válido, claro, mas enfraquece o livro em termos de argumentos. Até porque todo esse sentimento acabou por tornar o texto bem mais genérico do que a autora diz pretender.

Por ser um livro muito baseado em opiniões da própria autora, e por conta da sua visão que muitas vezes glorifica a situação feminina na Europa e nos Estados Unidos (que na verdade está longe de ser ideal, mas vamos relevar por conta do ponto de vista da libanesa), a sensação que eu tive ao ler o volume foi de estar lendo um texto feminista de uns 10 anos atrás.

Isso certamente não invalida a importância de Joumana no seu país, no Oriente Médio e no Mundo Árabe em geral, acho que o seu trabalho é muito pertinente e espero que gere muitos frutos. Mas, para leitores fora de lá o livro pode dar uma visão equivocada de algumas realidades.

Por exemplo, uma das coisas que ela reclama no livro (com absolutamente toda razão) é a questão do casamento infantil, o que dá a sensação de que o mundo árabe é o campeão nessa prática execrável. O que não é exatamente verdade, as estatísticas da Índia são muito piores do que dos países do Oriente Médio e, podem deixar o queixo cair, o Brasil não é tão melhor assim. Segundo a UNICEF nossa estatística é pior do que a do Afeganistão. É sério. Olhem aqui. E aqui.  Segundo as estatísticas comparadas mundiais, os piores países são os Africanos, não os do Oriente Médio. Não que uma coisa justifique a outra, é só uma questão do tamanho do problema não ser da forma como ela pinta.

Então, o que quero apontar especificamente é que o livro é muito voltado para o público árabe, sendo pouco aproveitado por pessoas de fora que não consigam contextualizar o seu conteúdo. O que pode ser um desserviço nesses tempos de islamofobia. Não que ela só ataque o Islã, não mesmo, ela ataca tudo quanto é religião, sendo muito igualitária nesse sentido.

Mas o livro tem coisas positivas. Todos os seus capítulos são divididos em três partes, uma poesia, uma espécie de caso pessoal e um texto mais completo. As poesias me agradaram muito, se não me engano só teve uma que eu não curti. Portanto, na média é um livro mediano.

Nota 7.

um útero é do tamanho de um punho


porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa
SPOILER FREE

Mais um livro de uma autora brasileira, meio que só pra dizer que eu li algo de literatura nacional esse ano. Mas, ao mesmo tempo preciso dizer que estava namorando esse livro desde a Bienal que aconteceu em setembro desse ano, e onde acabei não comprando o bendito porque o estande da editora estava cheio demais e eu já estava sem paciência.

Mas depois eu o vi novamente na Livraria Cultura e não resisti. Comecei a ler agora no final do ano, e como o livro é muito curtinho e as poesias dele funcionam quase que em bloco, ele foi devidamente lido rapidinho, mesmo no esquema de ler de manhã.

Angélica Freitas, autora do sul do país, caprichou na sua temática feminina, o livro é quase que um manifesto sobre o que se fala e pensa da mulher, com foco mais voltado para a parte complicada disso na sociedade brasileira e, por que não, mundial. Diversos textos não funcionam bem sozinhos, pois a obra foi feita meio em pedaços e em cada sessão as poesias são correlacionadas, funcionando muito melhor quando lidas seguidinhas.

De forma geral eu gostei muito do livro, mas como ele tem essa questão do conjunto da obra e não de cada poema em si, confesso que não marquei nenhum deles como excelente. Talvez isso também tenha acontecido por conta do incômodo que me pareceu proposital nos textos. Ou talvez eu tenha exagerado um pouco na temática feminista esse ano e o assunto esteja temporariamente carregado demais para mim. Afinal, tive um problema parecido com outro livro nesse final de ano, a resenha sairá daqui a pouco, aguardem.

Fora isso, é um livro importante dentro do cenário poético nacional e eu recomendo bastante.

Nota 7,5.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

The Princess Diarist

it was 1976...Charlie's Angels, Laverne & Shirley, and Family Feud premiered on TV.
     Steve Wozniak and Steve Jobs founded the Apple computer company in a garage.
    The Food and Drug Administration banned Red Dye No.2 after it was found to cause tumors on the bladder of dogs.
   Howard Hughes died at age seventy of kidney failure in a private jet en route to a Houston hospital. He was worth more than $2 billion and weighed 90 pounds.
    Anne Rice's debut novel,
Interview with the Vampire, was published.

SPOILER FREE

Com o lançamento de mais um filme de Star Wars, nada mais adequado do que ler uma das autobiografias da maravilhosa Carrie Fisher. Sim, autobiografias, no plural. Ela chegou a publicar 3 livros desse tipo antes de falecer no final de 2016. Fora os outros livros que eu só descobri que ela publicou quando li esse. E que vão entrar na minha wish list, claro.

O mais interessante do livro da atriz não é nem as fofocas relacionadas a Star Wars, apensar desse volume em específico (não sei dos outros) ser bem recheado delas, fica a dica para os fãs, e sim o seu humor. Carrie Fisher tem um humor maravilhoso, e melhor ainda, consegue aplicar esse humor para tudo e todos, inclusive, ou melhor, especialmente, a ela mesma.

É impossível passar incólume por The Princess Diarist. Em algum momento você vai passar vergonha dando uma boa gargalhada.

Mas o livro não é baseado só em humor, a eterna Princesa Leia é absurdamente humana. Sem deixar o seu sucesso ou status de ícone subir a cabeça (talvez pelo fato de que ela não ficou milionária assim, ou por conta de ser filha de outro ícone do cinema), Carrie fala de si mesma com muita franqueza e sobriedade. Talvez não tanta sobriedade no sentido de pura de álcool, realmente tenho minhas dúvidas com relação a isso, mas certamente com muito pé no chão. E isso dá um peso, uma realidade muito palpável ao que ela escreve.

E dessa forma ela trata de diversos assuntos interessantes, tais como ela foi parar em Star Wars, como era sua relação com a mãe, Debie Reynolds, o relacionamento fugaz que teve com Harrison Ford, como é o relacionamento com os fãs de Star Wars (gente, muito surtado!), como foi se tornar a Princesa Leia mesmo depois de terminar a trilogia original, e, por fim, sobre a sensação de voltar a grande personagem da sua carreira com o Episódio VII (lançado em 2015).

Enfim, foi uma experiência muitíssimo interessante entrar um pouco na pele de Carrie Fisher e sentir a força dessa mulher. Vale a pena mesmo para quem não é fã de Star Wars.

Nota 8,5.

Dusk or Dark or Dawn or Day

     The wind howls, the rain comes down in sheets, and Patty is still dead.
    The earth settles, the grave grows green with the first shoots of hungry scrub grass and dandelion root, and Patty is still dead.
    The funeral bells are silent, the last of the we're-so-sorry cakes have been reduced to stale crumbs that attract marching regiments of ants, and Patty is still dead. Patty is going to be dead forever, because that's what dead
means: dead is the change you can't take back, dead is the mistake that can't be unmade.

SPOILER FREE

Eis um livro que resolvi comprar porque estava barato e ele tinha boas resenhas no Goodreads. Fora isso, nada que a autora americana Seanan McGuire já escreveu me deu vontade de ler, exceto esse livro.

Como não resistir a uma boa história de fantasmas?

E impressionada eu fiquei. Devidamente. Não sei quanto aos demais livros da autora que não tenho vontade de ler, mas esse aqui valeu a pena. Não só o enredo em si é bastante interessante, com uma construção de mundo bem feita, mas eu amei a personagem principal.

Apesar dela parecer a princípio uma alma muito benevolente e que só faz boas ações, no fundo ela é medrosa e egoísta, o que a torna bastante complexa. Assim como outras personagens que vão sendo apresentadas ao longo da história. É até complicado falar muito da história ou dos demais personagens sem dar spoiler do livro.

Mas ficou tão legal que eu leria outras histórias passadas nesse mundo que Seanan criou, pois ele ficou muito muito muito interessante. Valia mais livros do que apenas esse, que sim, tem final, sem abertura para continuações. Grande raridade hoje em dia. Ponto positivo.

Mas nem tudo são flores... tudo é muito legal no livro depois que você entende como as coisas funcionam, o que demora um pouquinho, porque é um tanto confuso mesmo e os termos que a autora escolheu não ajudam tanto assim, isso quando não atrapalham. E às vezes o texto fica piegas, afinal, está-se falando de morte e saudades dos entes queridos etc.

Em resumo, é uma boa leitura que vale a pena o esforço, mas é preciso um pouco de paciência para entender o contexto e com as breguices. Superado isso, um prato cheio de literatura young adult.

Nota 8,5

domingo, 24 de dezembro de 2017

The Murder at the Vicarage - Assassinato na casa do pastor

      It is difficult to know quite where to begin this story, but I have fixed my choice on a certain Wednesday at luncheon at the Vicarage. The conversation, though in the main irrelevant to the matter in hand, yet contained one or two suggestive incidents wich influenced later developments.
     I had just finished carving some boiled beef (remarkably  tough by the way) and on resuming my seat I remarked, in a spirit most unbecomng to my cloth, that anyone who murdered Colonel Protheroe would be doing the world at large a service.

SPOILER FREE

Mais um livro da rainha do romance de detetive, a inglesa Agatha Christie. Depois de passar anos (tipo, uns vinte) sem ler nada dela, voltei a ler alguns volumes há alguns anos e me reapaixonei. Existe um motivo para ela ser tão perene e tão famosa. E certamente não é porque ela escreveu inúmeros livros, é porque ela é boa mesmo.

É preciso reconhecer que Agatha Christie sabia o que ela estava fazendo. Não é só uma questão dos mistérios serem tão maravilhosos ou complicados, até porque nesse quesito ela ficou um tanto datada, o que é o destino de todos os autores que lidam com a ciência que os policiais usam para desvendar assassinatos, mas sim da forma como ela cria e apresenta seus personagens principais.

Eu tenho um fraco pela Miss Marple. Ela é uma velhinha tão simpática, daquelas que poderia ser a vizinha de qualquer um. E no fundo, ela é só uma fofoqueira. Tem coisa mais comum que uma velhinha fofoqueira? Mas ela é descrita de tal forma que não tem como não se apaixonar por ela.

Aparentemente, esse foi o primeiro livro que a autora lançou da Miss Marple, o que o torna especial por um lado, mas meio fora do que você está acostumado de ler da solteirona por outro. O narrador é o pastor, dono da casa onde acontece o assassinato do título, e na verdade, a Miss Marple não aparece tanto assim, afinal, ela ainda não era famosa.

E mesmo sem se apoiar tanto no carisma de uma de suas personagens mais famosas, Agatha Christie faz um romance de primeira qualidade. Não é um dos seus maiores clássicos, mas faz jus ao nome da autora. Além de que, foge um pouco da sua fórmula mais comum, o que o torna interessante.

Nota 8,5.

House of Many Ways (Howl's Moving Castle, #3) - A casa dos muitos caminhos

     "Chairman must do it," said Aunt Sempronia. "We can't leave Great-Uncle William to face this on his own."
     "Your Great-Uncle William?" said Mrs. Baker. "Isn't he -" She coughed and lowered her voice because this, to her mind, was not quite nice. "Isn't he a
wizard?"
     "Of course," said Aunt Sempronia. "But he has -" She too lowered her voice. "He has a
growth, you know, on his insides, and only the elves can help him. They have to carry him off in order to cure him, and someone has to look after his house. Spells, you know, escape if there's no one there to watch them. And I am far too busy to do it. My stray dogs' charity alone-"
     "Me too. We're up to our ears in wedding cakes orders this month," Mrs. Baker said hastily. "Sam was saying only this morning -"
     "Then it has to be Charmain," Aunt Sempronia decreed. "Surely she's old enough now."

SPOILER FREE

Depois de ler os dois primeiros volumes de "Howl's Moving Castle" (O Castelo Animado e O Castelo no Ar) e tendo o terceiro na minha biblioteca, achei de bom tom terminar o ano sem deixar nada pendente para 2018.

E foi uma excelente decisão! A casa dos muitos caminhos é tão bom quanto o primeiro livro! Voltamos a ter uma protagonista feminina divertida, com suas próprias ideias e formas de fazer as coisas! E gente, que livro FOFO.

De certa forma, esse volume é ainda melhor que o primeiro, pois ele tem o frescor de Castelo Animado, mas sem os pequenos problemas. Charmain não é perfeita, é uma menina extremamente mimada, mas ela de alguma forma sabe disso, entende as suas limitações e tenta de algum jeito ultrapassar essas questões, sem perder de todo sua inocência ou deixando de ser criança.

O livro é tão legal que me animei de comprar o primeiro da série de Natal para as crianças da família, o que me deixou muito triste, pois descobri que está esgotado em português. Como assim minha gente??? Tudo bem que o livro é antigo, dos anos 80, mas o filme saiu em 2004, não faz tanto tempo assim para justificar a falta do livro nas livrarias. Ou faz? Me senti velha. Velha e triste. Os livros são bons e divertidos demais para não estarem disponíveis para essa geração.

Quem tiver a oportunidade, leia a série. Vale muito a pena.

Nota 9,5.

Everybody Lies: Big Data, New Data, and What the Internet Can Tell Us About Who We Really Are

     Ever since philosophers speculated about a "cerebroscope," a mythical device that would display a person's thoughts on a screen, social scientists have been looking for tools to expose the workings of human nature. During my career as a experimental psychologist, different ones have gone in and out of fashion, and I've tried them all - rating scales, reaction times, pupil dilation, function neuroimaging, even epilepsy patients with implanted electrodes who were happy to while away the hours in a language experiment while waiting for a seizure.
     Yet none of these methods provides an unobstructed view into the mind. The problem is a savage trade off. Human thoughts are complex propositions; unlike Wood Allen speed-reading
War and Peace, we don't just think "It was about some Russians." But propositions in all their tangled multidimensional glory are difficult for a scientist to analyze.

SPOILER FREE

Esse é um livro que foi lançado agora em 2017, o que é uma raridade para mim, quer dizer, é raro eu ler um livro ainda no seu ano de lançamento, por motivos de muitos e muitos e muitos livros para ler. Mas esse pulou a fila por conta do seu tema, estatísticas de internet sendo utilizadas para estudar a natureza humana.

Como não se interessar em como se pode determinar em quais lugares as pessoas são realmente racistas sem precisar fazer pesquisas de opinião, em que ninguém em sã consciência irá dizer abertamente que sim, é uma pessoa racista? Ok, existem exceções, mas a pesquisa nunca vai ter um resultado muito exato.

Todo o trabalho de Davidowitz começou a fazer sucesso no meio acadêmico quando ele produziu um mapa de estatísticas de racismo nos EUA, que ele na verdade tinha desenvolvido para tentar entender as eleições ganhas pelo Barack Obama, mas que previram melhor que todos os modelos dos grandes pesquisadores eleitorais a vitória (não prevista por ninguém de fama da área) do atual presidente americano Trump, com direito a acertar quase todos os locais onde ele venceu.

Simplesmente irresistível, né? Com a questão de ser um campo novo, ainda em desenvolvimento, o que quer dizer que em 5 anos provavelmente esse livro já vai estar bastante ultrapassado nessa área.

Questões do porquê eu escolhi ler logo o livro e questões técnicas à parte, o livro é muito divertido. O autor consegue tornar a leitura simplesmente leve, com inúmeras anedotas muito engraçadas. O trade-off disso é, claro, ele não fala muito sobre os aspectos técnicos de como se faz estudos com big-data (que são bancos de dados gigantes), ou exatamente que modelos ele utilizou para fazer os trabalhos que ele apresenta nesse livro.

Mas tudo bem, não era exatamente o objetivo desse livro em específico, para isso você teria que ver um livro técnico de estatística. Nesse livro, Davidowitz quer fazer uma explicação do porque usar big-data, quando funciona, quando não faz diferença, e abrir os olhos da galera para um novo campo de pesquisa e coleta de dados: a internet. (Isso foi antes de acabaram com a neutralidade da rede, o que é outro assunto, mas, eu não podia deixar de mencionar e apontar minha tristeza e perda de parte da minha esperança na humanidade com isso - pesquisem sobre esse assunto, afeta a todos que usam a internet)

E não, você não precisa entender nada de estatística ou base de dados para ler esse livro e se divertir. Pontos extras!

Nota 10!

Poemas do Brasil

 Uma Arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! e nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudades deles. Mas não é nada sério.

-Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (
Escreve!) muito sério.

SPOILER FREE

Esse é um livro que eu já tinha há muitos anos, mas só fui descobrir mais sobre a autora quando saiu o filme brasileiro "Flores Raras", o qual eu não vi, mas li sobre. Vai entender.

Mas como rearrumei minhas estantes de livros há um certo tempo e meus livros de poesia voltaram a ficar num local mais acessível, não demorou muito para Elizabeth Bishop entrar na lista de leituras. O que foi muito bem vindo.

O interessante sobre essa edição específica, é que além de ser bilíngue (muitos pontos positivos), ela tem uma biografia rápida da autora, com direito a correlação da sua vida com a sua obra e porque os poemas que estão no livro foram classificados como "poemas do Brasil". Vale a leitura.

Algumas questões de preconceitos à parte, o mais interessante da poetiza americana Bishop, é que ela realmente captou o Brasil, em especial o Rio de Janeiro e o interior do país. É meio doido, mas fantástico, ler em inglês algo que poderia ter sido escrito em português por uma brasileira.

Nem sempre as traduções ficaram à altura, o que é compreensível, e ao mesmo tempo estranho, porque o texto é muito brasileiro, mas não foi feito para o português, fora os casos em que Elizabeth decidiu fazer misturas, o que ficou muito interessante, e na tradução essa miscigenação se perde, infelizmente.

Nota 9,5

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O gueto/ O eco da minha mãe

 ANNE FRANK

Não há porão mais escuro
que este ao que desce a alma
para esconder com palavras
o que deveria chamar-se
                                      MORTE.
Perseguem-nos por isso
deixamos registro
de sobrevivência.
É uma homenagem ao gueto
clausura precoce
onde a menina aprende a trocar
vinte e quatro horas em claro
por segundo de escrita.

SPOILER FREE

Poetisa nova no pedaço! Apresento a vocês a argentina Tamara Kamenszain, descendente de judeus e, aparentemente, uma escritora muito conhecida na sua terra natal.

Essa edição bilíngue foi uma escolha muito feliz para o meu primeiro contato com ela. A editora juntou 2 obras da autora que apesar de terem sido lançadas com anos de distância entre uma e outra, funcionam especialmente bem juntas, pois as duas são formas de trabalhar o luto. Em "O gueto" Tamara fala sobre a perda do seu pai, enquanto em "O eco de minha mãe" ela trata não só da morte da sua mãe, mas também da dificuldade de lidar com as doenças da idade avançada.

Claro que por vezes o texto é bastante pesado, o que era de se esperar com o tema proposto, e tem uma quantidade grande de referências judaicas que eu certamente não captei por completo, ou pior, talvez nem tenha percebido que estavam ali. Mas achei essa presença muito interessante e enriquecedora, justamente porque não tenho tanto contato com a comunidade judaica.

Apesar de ter gostado da leitura, preciso dizer que diferentemente de outros livros, esse ficou com poucos marcadores de poesias das quais gostei. Não sei explicar bem como posso ter gostado do livro como um todo e não ter me apaixonado por quase nenhuma poesia em específico, mas é assim.

Agora quero ver mais obras dela, com outros temas, para experimentar mais do seu trabalho. Já estou com outro livro dela em casa, e ela está na lista de leituras de 2018. Aguardem mais notícias.
Nota 8.

Instante

TUDO

Tudo -
Palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas;
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos.


SPOILER FREE

Quem acompanhou minhas leituras esse ano já viu que eu virei fã de carteirinha da Wislawa. Então, já imagina a minha felicidade quando encontrei na Livraria Cultura mais um livro da poetisa polonesa em português! De Portugal.

Não que seja uma reclamação, apesar de ser uma. A questão é que a forma de pensar poesia, a escolha das palavras pelos tradutores, tudo, enfim, é um pouco diferente, e Wislawa trabalha muito com o cotidiano, o comum, e você perde essa sensação com o português lusitano.

Mas Wislawa é superior a essas coisas, e, pra variar, eu amei o livro. Daqui a pouco terei que começar a reler os livros que eu tenho dela, visto que muito pouco da sua obra foi traduzida tanto no Brasil quanto em Portugal. A notícia boa é que tem muita coisa traduzida para o inglês, e como ler no polonês original não é uma opção, vai ser assim mesmo! Aguardem mais da vencedora do nobel Wislawa em 2018.

Nota 10.

A House in Fez: Building a Life in the Ancient Heart of Morocco

Maybe it was a fit of madness,but on just our second visit to the old Moroccan capital of Fez, my husband and I decided to buy a house there - as one does in a foreign country where you can't speak the language and have virtually nothing in common with the locals.
Morocco is only 13 kilometers across the Strait of Gibraltar from Europe, but in almost every respect it might as well be on another planet. Situated in the northwest corner of Africa but separeted from the rest of the continent by the vast Sahara, its Arabic name, al-Maghreb al-Aqsa, means "the extreme west." It's a land of cultural and ethnic amalgams, of Berber, African, Arab, and, in more recent times, French and Spanish influences. The writer Paul Bowles called Morocco a place where travelers "expect mystery, and they find it." He wasn't wrong.

SPOILER FREE
Esse livro foi uma surpresa pelos motivos mais inusitados. Eu sou fã da escritora inglesa Susanna Clarke, que escreveu Jonathan Strange & Mr. Norrell, e eu achei que esse livro era dela, o que o tornaria automaticamente um bom livro.

Agora olhem de novo o nome da autora na imagem.

Então, essa é a Suzanna Clarke. Autora da Nova Zelândia, que fez carreira de jornalista na Austrália e agora vive no Marrocos.

Sacanagem, né?

Mas tudo bem, essa Suzanna também escreve bem, e o livro é muito divertido, mesmo se tratando de uma obra, ou justamente por isso. Além disso, o livro é surpreendentemente pouco preconceituoso, o que torna a leitura muito agradável e tranquila. As fotos são especialmente bonitas, por isso vale a pena ler o livro numa versão física ou pelo menos ver as fotos do kindle no aplicativo do celular ou tablet.

Me corrigindo, vale mais a pena a versão física mesmo, porque a versão digital está cheia de erros, não de digitação, mas de digitalização, pois no meio do texto volta e meia aperecem perdidos o título do livro, ou o número da página, ou os 2 num combo, o que é muito desagradável.

Levando em consideração que eu li a versão para kindle, nota 7.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

The Simple Sabbat: A Family Friendly Approach to the Eight Pagan Holidays

 I bought and read every book I could get my hands on about Witchcraft, some were great, and others were not. One thing I noticed was that most of them had the same information surrounded by a whole lot of "fluff". I finally sought out a teacher and learned more with her than I ever did out of a book. It was during that process that I realized that magic and being Pagan didn't have to be as hard as it was portrayed in some books,it really is so very simple and natural. It is about connecting with the elements, the basic building blocks of the universe. This path seemed so natural and so fluid; like I was remembering something I once did a lifetime ago. Many things were as natural as breathing, I had already been doing them for years.

SPOILER FREE

Então, quem segue o blog sabe que às vezes eu leio sobre paganismo, e esse livro em particular me chamou atenção por prometer ideias simples de comemorar as datas especiais do roda do ano, e como estava em promoção, lá fui eu.

A autora é meio doidinha, preciso dizer isso, o seu site pessoal então, é de assustar os incautos, mas o livro em si é bem bonitinho e entrega o que promete: ideias para celebrar as estações do ano. Excelente pedido para quem não tem muito tempo disponível ou quem quer sugestões de atividades que possam ser feitas em família, em especial com crianças. Bem organizado e com itens fáceis de achar na versão digital, apesar de ter lá umas questões de formatação.

Pessoalmente, o meu único problema com o livro é que eu não sigo a tradição específica dele, logo, diversas coisas me soaram um tanto estranhas e seria necessário diversas adaptações, o que é normal no meio pagão, vamos combinar. Outro ponto que não curti muito foi algumas explicações de significado das estações, o que ainda está no mesmo problema da tradição, mas é um pouco mais complicado de adaptar do que direções e seus elementos.

Outra questão pessoal foi a parte de receitas, que apesar de ser legal para quem é vegetariano ou vegano, pois ela dá sugestões de adaptações, não tem nada que dê para aproveitar para quem não come glúten, que é justamente o meu caso. Por que a mania de pão e bolo, gente? 

Em resumo, é um livro para um público bastante específico, visto que não é para iniciantes e nem para quem já possui um grupo que já dê um suporte, mas é interessante para os curiosos também, visto que desmistifica algumas coisas para quem não conhece nada sobre paganismo.

Nota 8.

Invasão: um conto urbano

Equipamento de rádio pirata e um notebook. Não era o que gostaria de ter enquanto trinta zumbis arrombavam a porta do apartamento que nem era seu. Gabriel suspirou enquanto confirmava o que impedia a entrada: a estante de metal e tudo o que encontrou pela frente. Minutos para evitar o fim onde tudo começou.

SPOILER FREE

Eu sou uma pessoa abençoada. Tenho muitos amigos que escrevem, e para quem ama ler, isso realmente é uma bênção. Ou não, depende. A relação pode ficar complicada na hora de resenhar o trabalho deles.

Tiago Cordeiro é meu amigo há tantos anos que eu prefiro não fazer a conta, e eu estava devendo ler os seus livros (esse já é o segundo, e o primeiro que eu leio, vergonha! eu disse que nem sempre é uma bênção). Mas eu leio sempre suas crônicas que recebo confortavelmente por email (sei que ele vai ler essa resenha e espero que aceite minhas desculpas) e que adoro ler toda semana.

O tema do desafio literário de novembro é literatura brasileira, a desculpa perfeita para diminuir minha dívida! O que fiz mais rápido do que eu esperava, pois o conto invasão é realmente curtinho e já estava no meu aplicativo kindle para celular (Amazon, mesmo a americana, também vende autores brasileiros, é muito amor) aguardando uma oportunidade.

Invasão é realmente curto, e acho que poderia ser mais longo e ter aproveitado melhor a ideia, pois ela é muito legal, e eu não conheço mais nada escrito sobre zumbis no Brasil, o que o torna um provável primeiro livro/conto do gênero por aqui. Não sei se passou na mão de um editor, pois acho que merecia um certo banho de loja e umas arrumações para ficar mais bonito.

E essas são as duas razões pela nota, o tamanho e a cara de não ter passado por um editor. Talvez eu seja doida, mas prefiro ser sincera nas minhas resenhas, mesmo com os amigos. Espero que ele não me mate.

Nota 7.

Spark Joy

     Life truly begins only after you have put your house in order. That's why I've devoted most of my life to the study of tidyng. I want to help as many people as possible tidy up and for all.
    This doesn't mean, however, that you should just dump anything and everything. Far from it. Only when you know how to choose those things that saprk joy can you attain your ideal lifestyle.
    If you are confident that something brings you joy, keep it, regardless of what anyone else might say. Even if it isn't perfect, no matter how mundane it might be, when you use it with care and respect, you transform it into something priceless. As you repeat this selection process, you increase your sensitivity to joy. This not only accelerates your tidying pace but also hones your decision-making capacity in all areas of your life. Taking good care of your things leads to taking good care of yourself.

SPOILER FREE

Eu mencionei por aqui há alguns anos, quando li um livro sobre minimalismo, que eu acompanho um blog sobre organização do qual eu gosto muito. Foi lá que descobri a Marie Kondo, pouco antes dela fazer sucesso aqui no Brasil. Na época li tanto sobre o trabalho dela e vi tantos vídeos, que eu tinha certeza que já tinha lido um livro dela, e tomei um susto quando descobri que não, e que, inclusive, esse é o único livro dela que eu tenho.

Surpresas à parte, estamos quase no final do ano, época em que eu gosto de fazer aquela boa arrumação no meu armário, e achei que estava precisando de uma inspiração. E que inspiração! Assim como todas as minhas amigas que já leram Marie Kondo (com exceção de uma que detestou a parte do livro sobre se desfazer de livros), amei o método da japonesa.

Marie Kondo consegue fazer de um assunto aparentemente chato, como organização de gavetas e como destralhar sua casa, uma coisa bonita. Sim, bonita. Ela tem aquele quê das religiões orientais que deixam tudo bonito, com ar de filosófico e cheio de sabedoria.

A boa notícia é que seus livros já foram traduzidos para o português (ela publicou apenas dois), e que se você ler o segundo livro é suficiente e tem a vantagem de ser ilustrado (segundo a dica de uma amiga minha, eu não li os dois para atestar com todas as letras, mas confio nisso). Graças aos deuses, o que comprei e li foi justamente o segundo, cheio de ilustrações fofíssimas e bem japonesas de como dobrar roupas no método Marie Kondo. (em português esse seria o livro de capa azul)

O engraçado é que todos amam o seu método, mas confesso que não conheço ninguém que o tenha feito até o final, o que a autora afirma veementemente que precisa ser feito numa determinada ordem (que ela explica a razão e faz sentido), até o final (difícil isso...) e apenas uma vez (não conheço ninguém que acredite piamente nisso, mas como também ninguém nunca termina, fica complicado de dizer que não funciona!). Outra coisa interessante, é que ninguém usa as suas dicas para guardar o que sobrou depois do processo de se desfazer das coisas. Só uma amiga minha testou o jeito da Kondo de dobrar roupas, e eu confesso que estou animadíssima de tentar.

Claro, ainda nem comecei o processo, mas independentemente disso, amei a leitura e indico para todos.

Nota 10.

Castle in the Air (Howl's Moving Castle #2) - O Castelo no Ar

 
     Far to the south of the land of Ingary, in the Sultanates of Rashpuht, a young carpet merchant called Abdullah lived in the city of Zanzib. As merchants go, he was not rich. His father had been disappointed in him, and when he died, he had only left Abdullah just enough money to buy and stock a modest booth in the northwest corner of the Bazaar. The rest of his father's money, and the large carpet emporium in the center of the Bazaar, had all gone to the relatives of his father's first wife.
     Abdullah had never been told why his father was disappointed in him. A prophecy mad at Abdullah's birth had something to do with it. But Abdullah had never bothered to find out more. Instead, from a very early age,  he had simply made up daydreams about it. In his daydreams, he was really the long lost prince, which meant, of course, that his father was not really his father. It was a complete castle in the air, and Abdullah knew it was. Everyone told him that he inherited his father's looks. When he looked in a mirror, he saw a decidedly handsome young man, in a thin, hawk-faced way, and knew he looked very like the portrait of his father as a young man, always allowing for the fact that his father wore a flourishing mustashe, whereas Abdullah was still scraping together the six hairs on his upper lip and hoping they would multiply soon.

SPOILER FREE

Outro dia estava tentando arrumar meus livros digitais para facilitar a vida e percebi que eu já tinha comprado, sabe-se lá quando, em algum momento aleatório esse ano, as continuações de Castelo Animado, e deu vontade e comecei a ler.

Daí percebi duas coisas, minha memória é péssima para nomes até em livros, pois confundi todos os nomes do volume anterior, apesar de ter lido o livro em março desse ano (são só 7 meses de distância, mas isso se traduz em 38 livros entre um e outro, então preciso de um desconto), e ter lido Orientalismo foi muito legal, mas agora vejo problema em tudo.

Assim como no primeiro livro dessa série (são 3 livros no total, e o terceiro já está no kindle), a autora inglesa Diana Wynne Jones consegue trazer uma história fofíssima, não tão feministamente empoderadora como o livro original, mas bastante interessante mesmo assim. Porém, ela faz uso de diversas imagens que só podem ser caracterizadas como orientalistas. Não é o orientalismo mais complicado ou que denigra a imagem do oriente, mas é orientalismo mesmo assim.

Confesso que a fofura me fez engolir diversas coisas que talvez eu não devesse, mas foi irresistível. Foi mais forte do que eu.

A história do vendedor de tapetes Abdullah, com sua princesa, o gênio da lâmpada e um tapete voador é por demais gostosa de ler para ser deixada de lado. Diana simplesmente escreve bem, e seu humor inglês é muito bom, mesmo com os problemas. Agora preciso ler o livro seguinte. Vou aproveitar dezembro, que tem tema livre no desafio literário!

Nota 9.

Once Upon A Curse: 17 Dark Faerie Tales



SPOILER FREE

Nas minhas leituras noturnas diárias eu tenho dado preferência por livros de contos ou que não me mantenham acordada a noite inteira, e como no mês passado o tema era livros que lembrassem o Halloween (essa resenha está atrasada, claro), achei que uma coletânea de contos de fada um pouco mais dark seria bastante apropriado. E a capa, a capa desse livro é linda, totalmente irresistível na hora de comprar, levando em consideração que eu gosto do tema, claro.

Infelizmente, a coletânea não foi tão interessante quanto eu esperava. Nem muito porque os contos eram ruins (apesar de que alguns realmente caíram nessa classificação, o que acontece em coletâneas, mas eram minoria), mas porque muitos tinham mais jeito de amostra grátis para alguma obra do autor do que de contos mesmo. Muito desagradável você chegar no final de um suposto conto e ter um link para comprar a continuação. E isso aconteceu algumas vezes nesse livro.

Em contraste com isso, alguns contos, uns dois em especial, eu realmente gostei, e o fato de ler lido o livro no aplicativo do celular facilitou muito, pois, como mencionei, no final dos contos sempre tinha links para as páginas dos autores, e eu confesso que aproveitei e comprei alguns livros no processo. Compradores compulsivos de livros, fiquem avisados. Leiam sem wi-fi ou em papel.

Na média, infelizmente, o seleção do livro não ficou tão boa, apesar das minhas compras, e por isso, a nota: 6.5.

The Ghostwriter


     A gentle pull of my hand. I resist, turning away, and smile when I feel the tiny fingers pushing aside my bangs, the soft weight of a body against mine.
    "Mommy." A huff of breath against my cheek. "Mommmmmy."
   "Mommy's asleep," Simon whispers. "If we don't wake her up, we can eat all the delicious chocolate chips pancakes ourselves."
    I growl, and clamp a hand over his, which is sneaking under the edge of my sleepshirt. I open my eyes and look uo into his face, those handsome features dusted by flour and a smear of chocolate. "Easy," I warn him, pulling of his wrist and dragging him onto the mattress, my movements quick as I wiggle out of the covers and atop his waist. "You know the monster is grouchy when she is awoken."
SPOILER FREE

Esse livro foi uma indicação de uma amiga, que costuma acertar nas indicações para mim, e como ele estava na promoção da Amazon e a descrição era interessante, não resisti, comprei, e quase logo em seguida, comecei a ler. Ordem de leitura para quê nessa vida? Eu precisa de algo legal para me distrair.

Foram três dias muito tensos. No último dia, quando cheguei no clímax da história, quase passei mal e confesso que fugi da vida para conseguir terminar de ler a história o mais rápido possível. Terminar o livro ajudou, mas passei o resto do dia e o dia seguinte meio fora do ar, pensando no livro.

Independente do quanto você ama ou odeia os personagens, dependendo do quanto a história em si te afeta, isso faz de um livro uma experiência inesquecível, e livros assim não tem como não serem bons.

Esse foi meu primeiro livro da Alessandra Torre (que apesar do nome é americana, esse é um mundo moderno e globalizado people), então ela começou muito bem no meu conceito. Porém, a maior parte das suas obras não é bem desse gênero, mistério e suspense, e sim literatura erótica. O que me lembra muito os seus personagens nesse livro, visto que os personagens principais são escritores, e um deles de literatura erótica. Talvez ela queira dizer algo com isso... ou não, vai entender.

Razão do suspense e do mistério à parte, que eu prefiro não aprofundar muito senão estraga a experiência para quem vai ler, gostei muito das descrições dos personagens escritores. Levando em consideração o que tenho conversado ultimamente sobre o ato de escrever, prazos, formatos de produtividade para autores e assuntos correlatos com uma das minhas amigas que, adivinha, é escritora, achei a descrição do trabalho dos autores-personagens sensacional. E apesar de não serem personagens feitos para serem amados pelos leitores, eles são definitivamente interessantes.

Já o carro chefe do livro, a questão do suspense e do mistério da história, o bacana não é descobrir o que aconteceu, mas o porquê. E esse porquê foi que mexeu tanto comigo (e com mais dois terços das minhas amigas que já leram o livro, fizemos até um encontro para discutir o assunto, o último terço não achou realista - pelo o que entendi, ela deve ler essa resenha - o que eu discordo).

Então, super recomendo o livro, mas fique avisado que não é para os de estômago fraco.

Nota 10.

domingo, 22 de outubro de 2017

The Witches of New York

     In the dusky haze of evening a ruddy-cheeked newsboy strode along Fifth Avenue proclaiming the future: "The great Egyptian obelisk is about to land on our shores! The Brooklyn Bridge set to become the Eighth Wonder of the World! Broadway soon to glow with electric light!" In his wake, a crippled man shuffled, spouting prophecies of his own: "God's judgement is upon us! The end of the world is nigh!"
     New York had become a city of astonishments. Wonders and marvels came so frequent and fast, a day without spectacle was cause for concern.
    Men involved themselves with the business of making miracles. Men in starched collars and suits, men in wool caps and dirty boots. From courtrooms to boardrooms to the newsrooms of Park Row; from dockyards to scaffolds to Mr. Roebling's Great Bridge - every man to a one had a head full os schemes: to erect a monument to genius, to become a wizard of invention, to discover the unknown. They set their sights on greatness while setting their watches to the noontime drop of the Western Union Time Ball. Their dreams no longer came to them via stardust and angel's wings, but by tug, train, and telegraph. Sleep lost all meaning now that Time was in man's grasp.

SPOILER FREE

Para o tema de outubro, que obviamente é o Halloween, nada como ler uma história sobre bruxas! E que surpresa maravilhosa foi descobrir a autora americana Amy McKay.

"As bruxas de Nova Iorque" (numa tradução livre minha, o livro ainda não foi lançado em português) é uma graça de livro sobre 3 bruxas de origens muito diferentes, mas que acabam por se encontrar na Nova Iorque do final do século XIX. E eu digo uma graça porque as bruxas são mesmo o máximo e, de um jeito peculiar, muito fofas. Inclusive, passei a gostar mais de corvos por conta do "bichinho de estimação" de uma delas.

Claro que por se tratar de uma história envolvendo mulheres poderosas no final do século XIX, o livro precisa tratar de alguns assuntos espinhosos, como a forma como mulheres eram vistas, com o encarceramento de mulheres em clínicas psiquiátricas pelos motivos mais fúteis, perseguições religiosas e o movimento sufragista. Então, apesar de ser fantasia, o livro tem um pé bastante firme na história, o que torna a leitura muito mais interessante (e um tanto quanto pesada).

A autora faz um retrato bastante fiel da época, e a única magia que realmente aparece com força é o contato com os espíritos, o que torna o livro bastante realista dependendo do que você acredita. Além disso, o livro tem muita representatividade, com personagens homossexuais, de etnias menos comuns, como ciganos e egípcios, o que dá direito a pontos extras.

Outro detalhe que eu adorei é que os capítulos são marcados por datas, que são divididas por fases da lua, e eles sempre abrem com passagens de outros livros, com trechos de jornal (mesmo que fictícios) que relatam acontecimentos em paralelo à história mas que marcam o que está ocorrendo na cidade e também trechos do Grimoire de uma das bruxas. E cada capítulo tem subcapítulos, que são narrados em diferentes vozes, alternando entre os diversos personagens da história, o que não se limita apenas as 3 bruxas principais.

É um livro muito bem escrito, gostoso de ler e que quando você percebe já acabou e apesar da história não terminar exatamente com um gancho, deixa gostinho de quero mais. Espero que a autora escreva mais sobre essas personagens e sobre esse mundo mágico que ela criou. Preciso de mais livros assim para ler.

Nota 10.

Orientalismo

 On a visit to Beirut during the terrible civil war of 1975-1976 a Frech journalist wrote regretifully of the gutted downtown area that "it had once seemed to belong to... the Orient of Chateaubriand and Nerval." He was right about the place, of course, especially so far as a European was concerned. The Orient was almost a European invention, and had been since antiquity a place of romance, exotic beings, haunting memories and ladscapes, remarkable experiences. Now it was disappearing; in a sense it had happened, its time was over. Perhaps it seemed irrelevant that Orientals themselves had something at stake in the process, that even in the time of Chateaubriand and Nerval Orientals had lived there, and that now it was they who were suffering; the main thing for the European representation of the Orient and its contemporary fate, both which had a privileged communal significance for the journalist and his French readers.

SPOILER FREE

Finalmente tomei vergonha na cara e li Orientalismo, essa obra marcante do palestino Edward Said que aponta tantos julgamentos e preconceitos hoje considerados absurdos, mas que até bem pouco tempo atrás eram algo absolutamente normal.

É verdade que Orientalismo não foi a primeira obra que aborda esse assunto (nem será a última), mas sua importância está no fato de ser um dos estudos mais completos sobre a questão quando se trata do Oriente e por ter sido escrita por um árabe, ainda por cima palestino, e escrito para um público ocidental. Repercussões a parte (o próprio autor tem um prefácio escrito para a edição de aniversário de 25 anos do livro que trata sobre isso), o livro é com certeza uma leitura obrigatória para todos que querem estudar o Oriente Médio e também outras regiões ou povos que são estudados de um ponto de vista euro centrista.

Mas quem quer que venha a ler Orientalismo, fique avisado, o livro é pesado de ler. E não apenas por ser um trabalho intelectual pesado que envolve citações de inúmeros autores e análise dos textos citados, mas também porque o assunto em si não é leve. Ler a forma como outros povos foram e ainda são tratados em estudos de acadêmicos europeus, americanos ou simplesmente brancos, é um exercício de autocontrole. É tanto preconceito, julgamentos sem fundamento algum e generalizações que você não sabe se chora, joga o livro/kindle longe, amaldiçoa os autores em questão ou simplesmente se enche de raiva.

E isso se arrasta por todo o livro de Edward Said, autor analisado nenhum se salva, uns poucos são só menos piores, e se você acha que a entrada do século XX traz alguma melhora significativa, pense de novo, as mudanças positivas só chegarão com um pouco mais de força depois da publicação de Orientalismo, em 1978. E se você acha que a mudança de centro de poder da Europa/Inglaterra para os Estados Unidos pode ter trazido algo de novo ou positivo, pense de novo. O pior é que independentemente da época ou lugar, os estudos produzidos dessa forma foram usados para justificar ações políticas ou para escolhe-las.

É desolador e deprimente mesmo. E para me deixar mais animada, claro que vi paralelos com a questão dos negros, das mulheres e dos latino americanos de forma geral. Num mundo onde o Trump foi eleito, esse tipo de leitura deveria ser obrigatória, para ver se as pessoas acordam para a sua própria ignorância. Como o próprio Edward Said aponta, enquanto não formos mais humanistas estamos fadados a repetir esse tipo de erro, e enquanto isso acontecer não haverá entendimento, respeito e paz.

A nota só não será máxima porque a edição que eu li não tinha bibliografia, e eu fiquei muito zangada por isso.

Nota 9.

Tails of Wonder and Imagination

     What is it about cats? Why do they lend themselves to fiction so easily? There have been numerous anthologies of cat stories, several of them multi-volume series. There is no other animal about which writers from all genres seem to be obsessed. Mystery, horror, science fiction, and fantasy stories have been written about cats.
     It's possible that felines, thought to be domesticated by happenstance rather them intent, are considered more mysterious, and thus more interesting to write about than other animals. Canines are pretty up front about their feelings - they're considered to be loyal, obedient, and cheerful. Dogs, the oldest domesticated animal, have anthropomorphized themselves - become more like people. Cats have done very little of that. They are still strangers in the house. The cat does what it wants and goes its own way, which conjures up the darker images of willfulness, self-interest, and mystery.

SPOILER FREE

Então, esse foi o livro que escolhi para o desafio literário de agosto, que consistia em ler um conto por dia. Só que por ser um livro comprado no kindle, eu não tinha a menor ideia de que ele tinha mais de 600 páginas!Resultado: demorei muito mais do que o esperado para ler, ainda mais porque li no esquema um conto por dia antes de dormir. O que também não foi lá muito certinho, porque alguns contos na verdade eram mais novelas ou romances do que contos, de tão grandes.

Fora o pequeno problema de organização, a seleção de obras de histórias relacionadas a felinos de Ellen Datlow é de tirar o chapéu. Entre autores maravilhosos e famosos, como Neil Gaiman, Stephen King, Susanna Clarke e outros, as histórias são em sua maioria fabulosas, com poucas ficando como medianas. Além disso, o livro é exatamente o que a organizadora promete: extremamente variado. Tem ficção científica, terror, fantasia, história de detetive, contos sobre o dia a dia (tem até um que realmente é baseado em fatos reais), mitologia... enfim, variedade é que não falta.

Portanto, é um livro que não se cansa de ler, e como a média de qualidade dos trabalhos é muito alta, também não dá vontade de pular nada no caminho. São 39 histórias que realmente valem a pena ler. Ficarei de olho para outros livros organizados pela Ellen, ela tem bom gosto!

Nota 10!

A Sombra do Amado: Poemas de Rûmî

O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.

Se já não sou do Ocidente ou do Oriente,
não sou das minas, da terra ou do céu.

Não sou feito de terra, água, ar ou fogo;
não sou do Empíreo, do Ser ou da Essência.

Nem da China, da Índia ou Saxônia,
da Bulgária, do Iraque ou Khorasan.

Não sou do paraíso ou deste mundo,
não sou de Adão e Eva, nem do Hades.

O meu lugar é sempre o não-lugar,
não sou do corpo, da alma, sou do Amado.

O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.

"Primeiro e último, de dentro e fora,
eu canto e reconheço aquele que É."

Ébrio de amor, não sei de céu e terra.
Não passo do mais puro libertino.

Se houver passado um dia em minha vida
sem ti, eu desse dia me arrependo.

Se pudesse passar um só instante
contigo, eu dançaria nos dois mundos.

Shams de Tabriz, vou ébrio pelo mundo
e beijo com meus lábios a loucura.
 SPOILER FREE

Rumi é um dos meus poetas favoritos, então a escolha do livro me foi muito óbvia. Inclusive, tenho vários livros e traduções diferentes do poeta sufi persa. E foi muito emocionante para mim visitar o seu túmulo no interior da Turquia (pena que hoje em dia não indico mais essa viagem para ninguém, a coisa está estranha no Oriente Médio).

Dito isso, não sei explicar o que o tradutor fez, pois confesso que não gostei do livro. A escolha dos poemas (que na verdade são pedaços de obras mais longas) não ficou bom, a escolha das palavras também não, e as notas sobre cada poema simplesmente não me tocaram. Rumi era para ser pura emoção religiosa, entrega sem limite, e sem delimitação de crença, muito na linha do Kabir. Mas nessa tradução ficou muito sem graça.

O mais triste é que pouco depois de terminar esse livro, comprei outro do Rumi, e quando cheguei em casa percebi que era o mesmo tradutor. Espero que os anos entre uma tradução e outra tenham trazido um pouco mais de conhecimento, sensibilidade e profundidade ao seu trabalho.

Nota 5.

[poemas escolhidos]

Idades

No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.
 
SPOILER FREE

Fiquei surpresa ao descobrir esse livro na estante de livros de poesia, eu confesso que não tinha a menor ideia de que Mia Couto escrevia poesia. Como gostei do outro livro que li dele, nem pensei muito, resolvi levar pra casa.

Foi então que descobri que gosto do Mia Couto como poeta. Sua poesia é muito terrosa, cheia de alusões a natureza e a família, tanto os antepassados quanto os filhos. E seguindo essa linha, ele faz uso de palavras simples, mas sempre cheias de significado pela forma como ele as usa. Seus poemas também costumam ser bem curtos e, definitivamente, uma delícia de ler.

Como não conheço muito dos outros livros do autor, não posso afirmar com certeza que mesmo quem não curtiu o sua prosa deveria experimentar sua poesia, mas para quem gosta de poesia, certamente é um prato cheio. O livro ficou lotado de marcações minhas. Espero encontrar outros livros de poesia dele por aí.

Nota 10.

Collected Poems - 1909-1962

A Dedication to my Wife

To whom I owe the leaping delight
That quickens my senses in our wakingtime
And the rhythm that governs the repose of our sleepingtime,
        The breathing in unison

Of lovers whose bodies smell of each other
Who think the same thoughts without need of speech
And babble the same speech without need of meaning.

No peevish winter wind shall chill
No sullen tropic sun shall wither
The roses in the rose-garden which is ours and ours only

But this dedication is for others to read:
These are private words addressed to you in public.


SPOILER FREE

Mais um livro de poesia da leva que terminei no início de outubro! O hábito de ler poesia todos os dias de manhã tem esses efeitos... além de outros muito agradáveis, como começar o dia bem.

T.S.Eliot é um autor americano que morou boa parte de sua vida fora dos Estados Unidos, e que ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1948. Infelizmente essa coletânea não possui toda a sua obra, e eu fiquei babando por causa disso... mas ao mesmo tempo ela mostra o crescimento do autor, o que é muito legal de perceber.

Boa parte dos poemas iniciais desse livro mostram um autor querendo mostrar o seu conhecimento intelectual, o que para mim soou um tanto quanto arrogante, depois ele se aprofunda mais na questão religiosa, que perpassa por toda a obra, o que de vez em quando me incomoda e de vez em quando eu gosto. Lá pela metade do livro fiquei com a sensação que ele finalmente se achou, e aí sai de baixo, o trabalho de Eliot é realmente de cair o queixo, ele não ganhou o Nobel a toa, mesmo. Meus poemas favoritos dele infelizmente são absurdamente longos, divididos em partes diferentes mas que tratam do mesmo tema, e por isso era complicado de colocar algum como exemplo em cima dessa resenha.

Agora vou precisar procurar outras coisas dele, como seus romances e peças (alguns pedaços de peças estão até nesse livro, e eu curti), para ver suas outras facetas. Virei fã.

Nota 9.

The Bees

Bees

Here are my bees,
brazen, blurs on paper,
besotted; buzzwords, dancing
their flawless, airy maps.

Been deep, my poet bees,
in the parts of flowers,
in daffodil, thistle, rose, even
the golden lotus; so glide
gilded, glad, golden, thus -

wise - and know of us:
how your scent pervades
my shadowed, busy heart,
and honey is art.


SPOILER FREE

Há algumas semanas (estou atrasada nas resenhas, para variar um pouco) eu terminei vários livros de poesia num só dia, porque, bem, o hábito de ler vários livros diferentes ao longo da semana é uma consequência de ler um pouco de poesia todos os dias de manhã e uma hora os livros acabam, e a probabilidade de acabarem juntos não é exatamente pequena. Aliás, super recomendo fazer isso, o dia começa sempre muito melhor.

The Bees é um livro que achei meio perdido na Livraria Cultura do Centro do Rio, que também recomendo como lugar para visitar e fuxicar livros. Nunca tinha ouvido falar da autora, mas a edição era tão bonita, e ela era premiada, e o livro não estava caro, então, acabei voltando pra casa com ele. E não me arrependi. Carol Ann Duffy foi premiada com razão.

A única coisa que me deixou meio passada no seu trabalho nesse livro em particular (ainda não li outros, então não vou generalizar) é a quantidade de referências inglesas (especialmente a lugares) que eu não consegui acompanhar. Tipo, elas estavam lá, faziam parte da poesia e da obra, mas para mim não acrescentam nada, o que achei uma pena, tenho certeza que eu teria gostado muito mais do livro se pudesse pescar essas coisas.

Uma vantagem desse livro, é que as poesias variam muito, tem algumas que podem ser até lidas por crianças (fofíssimas), tem poesias bem deprês também que já não seriam adequadas, mas de uma forma ou de outra, Carol consegue fazer todas elas estarem conectadas com o tema abelhas. Gostei tanto que pretendo procurar outros livros da autora. O chato é que sei que dificilmente encontrarei livros físicos dela por aqui, terei de procurar na Amazon para kindle (que aliás, também já tem uma coleção legal de livros de poesia, inclusive já resenhei pelo menos um por aqui), e ler no kindle de manhã não é a mesma coisa que ler um livro físico, confesso que perde um pouco a magia. O ritual não é o mesmo...

Para fãs de poesia, fica a dia!

Nota 9.

domingo, 1 de outubro de 2017

Battle Hymn of the Tiger Mother - Grito de Guerra da Mãe-Tigre


A lot of people wonder how Chinese parents raise such stereotypically successful kids. They wonder what these parents do to produce so many math whizzes and music prodigies, what it's like inside the family, and whether they could do it too. Well, I can tell them, because I've done it. Here are some things my daughters, Sophia and Louisa, were never allowed to do:
  • attend a sleep over
  • have a playdate
  • be in a school play
  • complain about not been in a school play
  • watch TV or play computer games
  • choose their own extracurricular activities
  • get any grade less than an A
  • not be the #1 student in every subject except gym and drama
  • play any instrument other than the piano or violin
  • not play the piano or violin.

 SPOILER FREE

Já não lembro mais porque comprei esse livro na Amazon, mas o tema de setembro do Desafio Literário era ler um livro de um autor inédito, então como nunca tinha lido nada da Amy Chua, foi ela mesma. Durante a leitura descobri que ela escreveu outros livros sobre assuntos que me interessam (geopolítica) e eles já estão na minha wishlist da Amazon!

Mas "Grito de Guerra da Mãe-Tigre" é uma espécie de autobiografia, onde a autora faz uma descrição da sua decisão de criar suas filhas no formato chinês tradicional, sendo ela filha de chineses imigrantes nos Estados Unidos, e os sucessos e fracassos pessoais que ela teve seguindo esse modelo.

Confesso que minha primeira impressão foi terrível, no sentido "essa mulher é louca", "ela tortura suas próprias filhas", "que absurdo" e outras coisas nessa linha. Mas ao longo da narrativa fui percebendo que minha primeira impressão, de que Amy estava defendendo com unhas e dentes o modelo chinês de educação, estava um tanto quanto equivocada.

Amy Chua não pretende defender esse modelo, ela o descreve e mostra como pode dar certo e como pode dar errado, assim como todo e qualquer modelo de educação, e como é preciso adaptar de acordo com a criança sendo criada. Apesar de parecer uma mãe muito dura e rígida, seu amor por suas filhas é imenso, e o tipo de sacrifício que ela fez por elas deixa muitos pais no chinelo.

A parte mais assustadora do livro não tem nada a ver com a forma como ela decidiu criar as filhas (que nem é tão terrível quanto aparenta), e sim o posfácio, onde ela descreve o que aconteceu com ela e sua família após o lançamento do livro (o que eu tenho é uma 2ª ou 3ª edição). A descrição das suas entrevistas é muito pior do que qualquer coisa que ela tenha narrado que fez durante a educação das meninas. Mas também foi interessante ver a resposta positiva delas ao ataque feito à mãe, saindo em defesa do modelo em que foram criadas, o que também surgiu por parte de outras mães, que nem chinesas eram.

Educação é um tema espinhoso, sempre, não tem como escapar, assim como não tem uma única solução ou milagre, mas é sempre enriquecedor ver uma descrição tão honesta de uma mãe que foge do padrão da sociedade em que vive, ainda mais quando é feito de forma positiva e construtiva como Amy Chua consegue fazer.

Estou ansiosa por ler mais trabalhos da autora.

Nota 10.